sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Manaus nunca será nem Liverpool, nem Porto Príncipe

No início de 2010 o Haiti sofreu um terremoto devastador que deixou o país mais destruído que as ruas da nossa cidade. Casas, escolas, prostíbulos e igrejas desabaram e ficaram parecendo o centro, naquela região ali da praça da matriz, que querem tombar patrimônio histórico antes que os prédios tombem como os três do Rio.

Como se a vida por lá fosse moleza, o terremoto deixou 220 mil mortos e pelo menos o quíntuplo de pessoas achando melhor ter morrido pra sofrer menos. Já naquela época, muitos haitianos resolveram se mandar do país em busca de sobrevivência. Talvez iludidos pelos números da macroeconomia, pela alegria e caridade oferecida pelas tropas brasileiras em solo haitiano, ou quem sabe pensando nas oportunidades que surgiriam no país da Copa, o destino escolhido por cerca de 2 mil deles foi Tabatinga, no Amazonas.

O problema é que Tabatinga, como toda cidade do interior do Amazonas, só tem duas fontes de renda: Prefeitura e tráfico de drogas. Lá a situação é ainda mais grave por fazer fronteira com Colômbia e Peru. Na Avenida da Amizade o limite com Letícia, na Colômbia, é demarcado por um poste com as bandeiras das duas nações. A cidade só serve pra alimentar a máfia amazonense de drogas, perfumes, uísques e eletrônicos contrabandeados. Mesmo assim, nesses dois anos de “invasão haitiana”, intensificada nos últimos meses, não foi registrado um caso sequer de haitiano envolvido com o tráfico.

O impacto dessa “invasão” é maior em municípios como Tabatinga (1 haitiano a cada 50 habitantes) e mais ainda em Brasileia, no Acre (1/20), tanto pela grande proporção imigrantes/população, quanto pela falta de oportunidade a oferecer. Mas quando os haitianos começaram a ocupar Manaus é que a questão passou a ser tratada como gravíssimo problema social. Manaus tem quase 2 milhões de habitantes. Proporcionalmente, o impacto é mínimo, acho até que temos aqui mais empresas fantasmas do que haitianos, o que não justifica esse bafafá todo.

Mas o fato é que se a presença dos haitianos ainda é mais um incômodo xenofóbico e racista do que um problema sócio-econômico, algumas medidas devem ser tomadas preventivamente, a fim de evitar que passe a ser problema de fato.

IMIGRAÇÃO CONTROLADA

Estima-se que cerca de 6 mil haitianos já estejam no Brasil (leia-se: por aqui) e terão sua situação regularizada. Desde o dia 13 de janeiro eles só podem obter o visto através da embaixada brasileira em Porto Príncipe, limitados a 100 por mês. É dever da embaixada brasileira conscientizar a população de que a imigração ilegal será punida com a extradição.

A fiscalização também deve aumentar tanto lá quanto em nossas fronteiras, buscando desmantelar o esquema dos “coiotes”, que por um valor entre 3 e 4 mil dólares, trazem os haitianos até aqui. Muitos deles fazem empréstimos ou vendem o pouco que têm pra bancar essa aventura: ônibus até a República Dominicana, avião até o Panamá, mais um voo até o Equador, um busão sem ar-condicionado até o Peru e finalmente um barco até Tabatinga. Alguns chegam a passar até 3 dias sem se alimentar.

CONTROLE INTERNO

Deve ser feito o cadastro e o acompanhamento de cada um deles, auxiliar na hospedagem, na ocupação de emprego, na qualificação profissional, na aprendizagem do idioma. Eles me parecem ser disciplinados, honestos e trabalhadores. Se forem tratados com respeito muito provavelmente serão gratos e não desperdiçarão a oportunidade, somente as exceções devem ser punidas com a extradição.

Aproximadamente 1600 haitianos já possuem visto de trabalho com autorização de permanência por 5 anos. Na Polícia Federal em Manaus são atendidos em média 60 haitianos por dia, em Tabatinga, 25 por semana. Enquanto não têm sua situação regularizada eles vagam pela cidade, sem ter como seguir adiante, nem como voltar pra casa. Daí a necessidade de apoio, a fim de evitar a marginalização.

RECUPERAÇÃO DO HAITI

Logo após o terremoto, além da ajuda humanitária, o Haiti recebeu apoio financeiro de várias nações e organizações internacionais para a reconstrução do país. Pelo visto a corrupção é uma das poucas coisas que existem em qualquer lugar do mundo, pois após a constatação do desvio de verbas, muitos deles cortaram as doações.

No dia 1º de fevereiro a presidente Dilma viaja ao Haiti para se encontrar com o atual presidente Michel Martelly, espero que esteja em pauta a reconstrução do país e que eles consigam novamente o apoio de outras nações.

MIGRAÇÃO ORDENADA E BEM DISTRIBUÍDA

Se a reconstrução do Haiti não ocorreu como deveria e a urgência pede que se busquem outras formas de apoio, a migração deve ao menos ocorrer de forma ordenada, com a regularização ainda em território haitiano, colaboração de mais países e em quantidade de migrantes que possa ser atendida sem gerar caos, tomando-se medidas que possam facilitar sua permanência no país de destino. Talvez caiba ao Brasil articular politicamente um apoio maior das demais nações.

Também acho que o Governo Federal precisa distribuir melhor essa carga internamente, inclusive assim podendo atender a um número maior de refugiados, mas não é porque a autorização veio do Governo Federal que o problema seja apenas dele. O Governo do Amazonas não pode simplesmente ignorar a presença dos haitianos aqui, deve sim buscar as medidas de inclusão. Essa história de que precisa priorizar os amazonenses não cola, é mera desculpa pra se esquivar da responsabilidade. Nossos problemas sempre existiram e sempre existirão, a presença dos haitianos não causa grande impacto nessa questão. O grande pecado do haitiano é simplesmente não ter direito a voto, fosse o caso estariam todos sendo recebidos com largos sorrisos e posando pras lentes fotográficas do oportunismo.

HUMANIDADE

Situações como a do Haiti devem resgatar do fundo do que chamamos de alma, mesmo daquelas mais esvaziadas, por qualquer motivo que seja, o mínimo de compreensão. Se você não quer ou não tem como colaborar de alguma forma, ao menos se abstenha de atrapalhar. As divisões territoriais são meras formalidades políticas, que têm lá sua importância para evitar desordem, mas é só. O fato de uma pessoa ter outra nacionalidade, cor de pele, crença religiosa ou costume divergente, não o faz desmerecedor de tratamento respeitoso.

“Esses haitianos” estão aqui em busca de sobrevivência, não pra roubar nossas riquezas, como fazem os ricos e poderosos que tanto respeitamos e tememos. Quem está acostumado a comer biscoito de barro e beber água da sarjeta se contenta com bem menos que nós. É mais fácil esses coitados serem explorados que nos causarem algum mal, tão visível é a posição de inferioridade com que nos olham.

É fácil lutar pela igualdade quando é pra nos igualarmos aos que têm mais, nunca pra que os que têm menos se igualem a nós. Os haitianos mal nos conhecem e já nos amam, o mínimo que devemos fazer é não odiá-los.

2 teimoso(s) falando titica:

  1. Rodrigo, acho que tu foi quem conseguiu resumir melhor o pensamento que espalhei lá no tt: os haitianos não começaram a chegar ontem e não vão parar de chegar amanhã. Omar tem o DEVER de sistematizar, estruturar algum tipo de auxílio e apoio, fazer sua parte, e não jogar o problema no colo dos outros. Se alguém quem ajudar ou não, dar roupa, fazer rede solidária, acho isso uma questão pessoal, doa quem quer, ajuda quem quer... mas um homem que ocupa o cargo público de governador não pode jamais tirar o corpo fora. Ele tem que dar conta dos problemas e de todos os problemas, não justificando inoperância e omissão com leviandades como "os amazonenses primeiro". E sucesso pra ti na caminhada partidária. Abs,

    ResponderExcluir
  2. Texto incrível. Que prazer de ler algo tão bem pensado. Meus parabéns.

    ResponderExcluir